quinta-feira, 28 de julho de 2011

No buraco mais embaixo de tudo...

Interessante...

Cena um, tomo um, ação: Como um vento ruim soprando as páginas do tempo, o termo "Darwinismo" associado a massacres volta com força depois dos atentados na Noruega em 22 de julho último, levados adiante por Anders Behring Breivik. Cristãos, arrogando-se o direito de contradizer Darwin em sua teoria da Evolução, costumam associar as práticas nazistas da segunda guerra com a teoria de Darwin, desmerecendo-a, ao reduzi-la a um dos mais fortes motivos para que o nazismo se empenhasse na "purificação" da população mundial, eliminando os "refugos" e desenvolvendo uma raça "superior". E isso, como é de se esperar, cai feito uma bomba sobre as mentalidades afeitas a colocarem a culpa pelo caos social nas costas de quem "não tem Deus no coração" e que "segue" a ciência. Darwinismo = ateísmo => coisa de quem não tem Deus no coração.

Tomo dois: Do outro lado, como um vendaval deslocando o centro de massa do sistema para o buraco mais embaixo, vejo uma motivação política visando a manutenção da Europa para os europeus, sendo tratada como mais um capítulo da série: "Amor cristão mata". Sem escrúpulo algum, reduzindo a intenção do sujeito à simples loucura de um pretenso fundamentalismo cristão tocando as trombetas de Jericó contra os infiéis, as motivações políticas egemônicas são lançadas a um último plano de abordagem, visando fazer fulgurar a irracionalidade inerente à fé religiosa como a causa principal do massacre na Noruega(oi?).

Observação: Sim, sim, mais do mesmo. Ao invés de procurar os motivos reais, ao invés de observar a tela ao fundo, parte-se para as cores berrantes em contraste. Polarização: De um lado, cristãos apontando o dedão unhento para uma característica de quem se atém à ciência para busca de respostas às questões do mundo. Do outro, ateus buscando respostas para os males do mundo na crença religiosa. Enquanto isso, lá no buraco bem mais embaixo de tudo, a razão, a motivação primeva, o que realmente impulsiona a roda da fortuna (a câmera adentra um fosso escuro, bem abaixo), dois olhos ambarinos faiscantes rompem a escuridão: A natureza animal.

Incólume, intocável, à espreita, nossa natureza animal dita nosso comportamento à revelia de nossas mais sublimadas intenções. A sensação é de derrota. Mas como, se somos humanos, seres pensantes, racionais, como nós nos deixamos carregar por instintos?(aqui eu vejo uma claquete fechando...)

Cena dois, um abre aspas gigante: O territorialismo, o senso de proteção à família, ao clã/grupo social em que estamos imersos, está entocado dentro de nosso cérebro límbico, uma camada abaixo e mais intrínseca de nossas mais elaboradas construções mentais, visando deslocar o eixo do sistema acima das raízes da árvore na qual ainda nos empoleiramos. Dessa construção teratogênica forçada, deslocando-se a copa para muito acima das raízes, o tronco exposto torna-se fino, fraco, um fio suspenso entre as nuvens no céu e o abismo. E é justamente nesse fio exposto, dividido entre os que crêem em Deus e os que não crêem, que desejam encontrar razões e fundamentação para todas as atividades humanas ilícitas. Fecha aspas (e claquete).

Cena três: Uma brisa revolve os finos cabelos loiros... ah, o ar de superioridade em olhos cinza brilhantes e frios como o fio de uma navalha. Anders Behring Breivik, 32 anos, norueguês, resolve fazer parte de um plano de erradicação dos islâmicos na Noruega. O plano exige a elaboração durante 18 meses. Um ano e meio de esforços concentrados. Nesse ínterim, um manifesto é escrito explicando as razões, os motivos, as metas, tudo compartimentalizado e, à primeira vista, não dizendo coisa com coisa. Sim, é mais fácil dizer que ele é só mais um louco. Afinal, quem perderia seu tempo elaborando um plano macabro com requintes de racionalidade?

Li gente chamando-o de psicopata. Outros alegam que ele é paranóico, narcisista. Um cristão fundamentalista de extrema direita. Um ateu "darwinista" sem deus no coração. E até agora, nenhuma menção a um ser humano exercendo sua intenção de defender seu grupo da invasão de outro grupo. Mas o caso é que grupos defensores da egemonia de um grupo são pura e simplesmente animais em luta pela defesa de território e do grupo. Quando o que nos torna humanos é sobrepujado por nossos instintos mais básicos, nós matamos, usurpamos, destruímos, tentamos eliminar a ameaça, sem remorsos pelo que possa advir de nossas ações.

Cena quatro: Como Moisés na bílbia levantando o cajado contra o Mar Vermelho, dividindo o senso comum, pessoas na busca por explicações visando emporcalhar o que for mais importante ser emporcalhado no momento, puxando a sardinha pra brasa do próprio fogareiro, ou atendo-se à pretensa loucura de Anders, deixam passar o mais importante nessa e em outras muitas questões humanas com que nos deparamos a cada folheada de jornal, a cada acesso a site de notícias. O que nos torna humanos, essencialmente humanos, é também o que nos afasta de nosso ideal de viver em harmonia com o Cosmos, na base de alcançarmos as nuvens subindo pelo fio fraquinho suspenso acima do abismo naquela construção teratogênica de nossas elaborações mentais, visando afastar-nos de nossa natureza animal. E sim... ela, a nossa natureza animal, ainda nos surpreende. Nós a negamos. Mas ela está lá e faz parte de nós.

A diferença entre religiosos que seguem seus deuses e ateus que os eliminaram é talvez o uso de hipocrisia para funções diferentes. Enquanto religiosos tentam manter a fachada de tementes a Deus e, portanto, "bons cidadãos", contando para isso com a hipocrisia da bondade de fachada, ateus contam com a hipocrisia de não estarem fazendo o mesmo que religiosos. E todos, sem discriminação, dançam conforme aquele ser de olhos ambarinos, à espreita no buraco mais embaixo de tudo, dita. Eu, atéia, também danço(derbaques em fúria, por favor...).

Cena final: Na dança do ventre, o som dos derbaques marca a dança mais primitiva, ligada ao sexo feminino, apenas ritmo, sem outros instrumentos. Ela massageia e revigora o ventre de forma a dar melhor sustentação aos músculos pélvicos, além de fazer a dançarinha gastar energia e irradiar vigor físico. Um frenesi. Enquanto isso, mulheres cobrem-se com véus, são obrigadas a isso por causa de sua religião. Homens que professam a mesma fé que as mulheres envoltas em véus, matam e castigam as mulheres que não se submetem. E essa gente que mascara a sexualidade sob mantos escuros e sombrios como o kajal adornando os olhos, não é bem vinda por pessoas como Anders em sua terra natal, lutando pela manutenção de costumes essencialmente europeus, há pelo menos 2000 anos. A igreja católica tem perto dessa idade na Europa.

Aí, vem gente e coloca representantes da religião católica de extrema direita como os mandatários de assassinatos dos de extrema esquerda na Noruega, visando erradicação de islâmicos na Europa. Minorias prejudicadas por representantes da ICAR em sua aceitação na sociedade, homossexuais, ateus, alimentam essa associação. Enquanto isso, lá embaixo, no fundo profundo de tudo, olhos ambarinos faíscam, à espreita...

Assinalando: Trajetória parabólica da defecação em direção à ventilação. (claquete fechando com estrondo...)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Da superioridade humana...



É que tem gente que não se contenta em simplesmente estar no topo da cadeia alimentar nem de ser parte de uma das espécies mais versáteis em termos de adaptação ao ambiente. Alie-se isso ao medo da morte ter feito com que criássemos uma idéia de transcendência e "plim!", deu-se a sensação de sermos mais que animais. A morte não podia ser o fim.
.
No final, essa idéia de transcendência é que acaba fazendo com que criemos mundos imateriais no pós morte para abrigar os que já se foram, já que não os vemos mais aqui e, se vamos a esses mundos, algo "deve" desprender-se de nós pela hora da morte, algo que pode vir a influenciar os vivos dando mostras de sua existência no além, ou libertar-se para jamais termos notícias novamente. O processo de criação de conceitos como alma, espíritos, deuses, anjos, demônios e esse "algo a mais"em relação aos demais seres vivos seria então um resultado dessa necessidade de transcender para não morrer.
.
Mas o interessante é que o universo existe porque alguém percebe essa existência. E se essa percepção depender de uma consciência, tudo deve ter algum grau de consciência que permita a interação com outras partes desse universo desde as mais ínfimas partículas até os confins do universo conhecido, emprestando existência a essas partes. E se for assim, a morte acaba sendo o fim de uma individualidade, humana no caso de estarmos falando de humanos, e não o fim da consciência que continuará existindo em toda parte. As implicações disso resultam numa explicação simples para o que acontece "no além". Nada sobrenatural, nada estranho demais... só a continuidade da existência em outras formas físicas, desde partículas até...
.
"Iluminados" já chegaram a conclusão semelhante ao afirmarem que todos somos UM, ou que todos "são" EU (já que existe um eu em cada coisa...), ou que existe uma vida eterna. O problema é que vinha sendo difícil explicar isso sem tantos conceitos que conhecemos agora e de que forma a inter relação de tudo com tudo se dá. Isso porque não sou eu ou você que vamos experimentar essa "ligação". Mas o tecido da existência, a matéria de que somos compostos, átomos e partículas interagindo e criando tudo a partir de uma mesma origem.
.
É assim que pela falta de termos melhores, já se falou em todos irmãos, irmão Sol, irmã Lua, irmã terra, animais irmãos... ou na unidade do todo, unicidade... E quem vê a si mesmo como superior aos demais seres e partes disso tudo ainda não entendeu a abrangência da coisa toda e contenta-se com pouco de quase nada, ou só com a supervalorização dos humanos com base na crença de sermos especiais por sermos "a imagem e semelhança do criador". Mas o "buraco é bem mais embaixo"...

terça-feira, 2 de março de 2010

Pois é...



Vim de cidade grande. Nasci em São Caetano do Sul, SP. Estava sempre em contato com italianos, falava um português italianado que só quem viveu a vida perto de italianos aqui no Brasil conhece... e nem se dá conta. Pois então, eu falava italianado quando era criança e não sabia disso. Até que vim morar no interior... há 30 anos.

Preconceito? Sei sim o que é isso. E eu não tinha uma religião
diferente, nem sou tão diferente assim, vai. Só que eu era um ET no meio de outras crianças que viviam aqui no interior há 30 anos e que de forma alguma estavam acostumadas a falar nem ouvir falar do jeito que eu falava. E eu achava o jeito delas falarem horrível... assim não sentia tanto quando elas me apontavam dizendo: -
Ói como qui ela é branca! Lumeia! Ô espichada! Sã, você num si pareci nada com a gente... e lá ía eu pro canto e, se brincava na escola, sempre alguma inspetora ficava por perto prá evitar que eu machucasse os
pequeninos... e eles tinham a mesma idade que eu.

Eu só era 20 a 30cm mais alta, mas isso nem era problema... o problema maior é que eu já estava alfabetizada, montando frases, lendo e escrevendo e eles ainda no
vovó vê a uva... e a professora me excluía para não desestimular os demais: eu não podia mostrar o quanto eu sabia, pronto!

Vivi 1 ano e meio desse jeito até que mais uma menina de São
Paulo veio estudar naquela escolinha. E eu fiquei tão feliz! Ela
era mais ou menos do meu tamanho, falava do mesmo jeito! E ela também gostou de me encontrar ali, a gente falava das mesmas coisas, brincava do mesmo jeito, tinha pais operários, não era filho de fazendeiro nem dono de alambique...

Não demorou nada para que outras crianças nos achassem metidas, esnobes, e assim elas começaram a nos excluir de todas as brincadeiras possíveis, fazendo com que a gente se unisse ainda mais. Assim, diante dessa postura "racista" dos demais, eu e ela comprávamos o lanche uma para a outra, nós nos ajudávamos uma a outra com as lições, com o entendimento das aulas, sentávamos juntas... e resolvemos criar um grupo restrito, onde taubateanos "autóctenes" não entravam!

Com o tempo mais gente foi chegando e nós ciceroneávamos os recém chegados. A Ford de Taubaté chamava o restante do quadro de funcionários, assim como a Volkswagen. Já não éramos alguns mas uns poucos que com o tempo se tornariam muitos e aos poucos, a sensação de precisar da companhia dos "iguais" foi passando... mas foi bem forte no começo. E aos taubateanos não restavam muitas opções não: era só nos aceitar ou viver correndo da gente...

Até hoje eu destôo da gente daqui. É uma questão genética, ser alta, ter uma cultura diferente, gostar de coisas diferentes. Já não me apontam mais na rua, nem eu me sinto excluída. Mas ainda é um prazer imenso conhecer gente que é da minha terra... e é um prazer maior ainda ouvir o sotaque tão peculiar do pessoal mais velho de São Paulo quando eu vou prá lá, aquele jeito italianado, cantado e gritado de falar.

Isso lembra alguma coisa? Lembra sim... que muitas vezes os
diferentes que são iguais em alguma coisa se vêem forçados a formarem grupos para sobreviverem em meio aos demais diferentes. Com os judeus não tem sido diferente disso... nem com os brancos vivendo num países de negros, nem com negros vivendo em países de brancos, nem amarelos vivendo em meio a nórdicos, nem com ateus vivendo no meio da crentaiada... é assim. Somos esnobes, metidos, excludentes e excluídos: somos OS DIFERENTES! E se quiserem fazer parte, não dá, infelizmente, já que não se pode mudar a ascendência genética, os costumes enraizados, o conjunto de crenças só por opção. Tem que fazer parte, ou não...

Postado em abril/2003 - Lista Noosfera - Yahoogroups

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Excertos

Discussões pelo orkut...

poltergeist- O fenômeno
Pessoal, no clássico filme "poltergeist-o fenômeno", em uma das cenas é mencionado o seguinte termo: "incidente de bilocação", que pelo que entendi seria uma abertura entre o nosso mundo e uma dimensão paralela ou o mundo espiritual como queiram. Pra quem não assistiu ao filme, é através dessa passagem que uma parapsicologa com a ajuda de uma médium consegue trazer de volta a pequena "carol Anne" para o nosso mundo. O que voces acham? Já ouviram falar desse incidente? É possivel acontecer isso, ou é apenas roteiro de cinema?



Essas "batalhas" todas se dão no íntimo. Não há necessidade de "portais". O que acontece é que para quem faz o filme ou narra a história em terceira pessoa, a possibilidade de existirem tais portais e mundos espirituais ajuda a colocar as coisas numa perspectiva compreensível para quem está lendo ou assistindo. O problema está no fato das pessoas preferirem acreditar na existência real desses recursos de linguagem ao invés de experimentarem por si mesmas do que se trata essa percepção do "outro lado". A percepção do mundo ao redor passa pelo crivo cerebral, sempre. E quaisquer cisões, bilocações, não são possíveis fisicamente. Só no interior da mente de cada um. E isso ainda SE houver predisposição da pessoa conseguir fazer essa dissociação.

O uso de algumas drogas pode induzir esse estado de percepção de "duas realidades". Mas isso, como no caso de envesgar os olhos e ver duas imagens, deve-se à perda momentânea ou não da capacidade do cérebro interpretar os estímulos sensoriais de forma coerente enquanto cria a percepção do momento presente. Durante todo o tempo em que passamos no estado de vigília - acordados - nosso cérebro é responsável por interpretar todos os estímulos do ambiente captados pelos sentidos da visão, audição, tato, gosto, cheiros. Se não houver um acordo entre o que é captado pelos sentidos e a interpretação final do cérebro, temos como resultado alguma alteração do que é percebido. Assim que se criam as alucinações, sensações bizarras de estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo, de ver pessoas que já morreram, de ouvir sons estranhos, "cheiros fantasma". Há quem, com base nisso, acredite que existe uma "outra realidade". De fato, se o cérebro não estiver capacitado a perceber a realidade como um todo coerente, a sensação de que "existe muito mais além" é bem "real". Mas isso não implica dizer que há "algo além". Só que, em determinado momento, houve uma ou várias falhas na interpretação dos estímulos pelo aparato sensorial e cerebral.

Mas então????Como o Universo teve a capacidade de criar esse "poder" que é o nosso cérebro?Esse poder da mente humana? De onde vem essa capacidade mental que todos temos mas por poucos é conhecida?

Bem, o universo, por si só, é muito complexo. A matéria, por si mesma, é extremamente plástica e estranha quando se analisa a "tecitura" da mesma, o mundo das subpartículas que estão lá todo tempo mas que dependem de imensas quantidades de energia para serem libertadas das estruturas atômicas e moleculares que permitem a criação de mundos como o nosso, galáxias com centenas de bilhões de sóis, seres vivos das mais variadas formas e tamanhos a partir de moléculas replicantes, como é o caso do DNA. E pensar ainda que toda essa complexidade surgiu de um ponto infinitezimal é de fundir o cérebro de qualquer pessoa. Mas nem por isso há a necessidade de um artífice, de um regente, ou mestre de obras.

O que se sabe é que nós somos resultado de sequências de eventos desde o princípio, que gerou condições para que houvesse formas de vida, inicialmente unicelulares como bactérias, que vêm evoluindo e adaptando-se às condições deste planeta desde há muito tempo atrás, algo em torno de 3,5 bilhões de anos. O que se sabe também é que formas de vida primitiva como bactérias extremófilas podem sobreviver às mais variadas condições climáticas não só daqui da Terra e podemos descender delas.

O funcionamento do cérebro é incrível sim. A mente humana, fruto direto desse funcionamento é sim uma maravilha à parte. A consciência emergindo como resultado do funcionamento de cérebros complexos como o nosso é fascinante. E a falta de respostas para nossa condição de possuidores dessa maravilha a nosso serviço é insaciável fonte de especulações. Se acreditar que toda essa complexidade que se estende desde as mais ínfimas partículas deste universo até a própria estrutura universal, passando por cérebros de seres vivos das mais variadas complexidades e graus de consciência, foi criada por "Deus"for uma resposta suficiente pra você, como eu ou qualquer outro pode dizer o contrário disso?

O máximo que eu posso fazer é mostrar que não é tão simples contentar-se com "Deus criou" quando se dá início à busca por entendimento "do que é tudo isso afinal de contas" e continuar sem respostas, uma vez que qualquer deus capaz de criar um universo tem de ser também extremamente complexo e detentor de infinitos atributos... O meu erro, no caso, seria perder a chance de buscar respostas concretas sobre What the f*ck this all means para dar prosseguimento à lista dos bilhões de nomes de Deus, aos infinitos atributos do Totipotente...

Evolucionismo x Criacionismo

Introito:

No princípio, tudo era simples: Deus havia criado os céus e a terra... plantas para ornamentar sua criação, animais para povoá-la, o ser humano feito à sua imagem e semelhança para reinar sobre toda a obra deixada a partir de então à mercê de seus caprichos... porém, um detalhe pôs tudo a perder nos perfeitos planos divinos. Sua obra máxima, o cetro e a coroa de sua criação resolveram insurgir-se contra suas ordens... e eis que Ele teve de expulsá-los do paraíso perfeito, abortados de Seus planos de felicidade eterna e vida harmoniosa, pois comeram do único fruto proibido: o fruto do bem e do mal. A partir disso, Homem e Mulher aprenderam a duvidar e a questionar, aprenderam que teriam que lutar pelo seu sustento, pela sua felicidade... aprenderam que teriam que aprender como o mundo funciona...

Muita gente pode ler essas linhas acima e pensar que eu estou de brincadeira com o que está nas escrituras do velho testamento bíblico. Na verdade não é uma brincadeira, apenas uma tentativa de introdução. Estórias como esta que são contadas em cursos de catecismo, que são lidas em voz alta pelos pastores em seus púlpitos diante de uma platéia aturdida, têm um certo papel a cumprir. Vêm ao encontro do desejo humano de conhecer suas origens e entender o que está fazendo vivo num mundo que parece não ter sido feito para ele... e foi assim, com a "assinatura divina", que tais escrituras chegaram até nós trazidas de milênios atrás através dos tempos para que de certa forma, nossas dúvidas fossem sanadas sem que continuássemos incorrendo no erro daqueles que são tidos por nossos pais bíblicos, a imagem e semelhança de Deus, Homem e Mulher que pecaram por não obedecerem, lançando sua descendência neste vale de lágrimas... Seria assim que a história de nossa espécie estaria sendo contada até hoje caso não tivéssemos dado um basta ao conhecimento imposto e buscado respostas por nós mesmos...

Não é difícil dar início a um questionamento ininterrupto. Basta, para tanto, que a primeira pergunta leve a mais perguntas e estas, ao serem respondidas, gerem mais dúvidas que certezas e consequentemente mais perguntas. Durante algum tempo que se estendeu por séculos, nossa civilização ocidental acatou cegamente aquilo que lhe foi ensinado por aqueles cuja finalidade era espargir o conhecimento adquirido através do que se denominava "inspiração divina". Acredita-se que a bíblia inteira tenha sido escrita sob tal inspiração, daí sua importância durante o longo tempo em que as idéias eram dogmas e, consequentemente inquestionáveis, empurradas goela abaixo daqueles que se aventurassem a buscar compreender alguma coisa. Porém, ainda que certos de incorrerem em "pecado", alguns expoentes humanos resolveram não mais acatar o que lhes era imposto como verdade absoluta e deram início ao questionamento de sua própria natureza, não mais com base no que está escrito... mas com base no que seus olhos atentos e um real interesse em compreender ditava. Desta feita e em meio ao conhecimento cristalizado fornecido pela Igreja com base nas escrituras, que se deu início a uma grande e revolucionária jornada rumo ao desconhecido, com o firme propósito de desvendá-lo, perscrutá-lo e conhecê-lo na medida em que dispositivos de observação para auxiliar a análise foram sendo desenvolvidos. Estava dada a largada ao questionamento ininterrupto, gerador de dúvidas à espera de respostas, propulsor do que viria a ser conhecido por Ciência.

Foi assim, ao munirmo-nos da Ciência, que o princípio, o início idealizado pelos supostos detentores das informações recebidas diretamente de Deus foi revisto, questionado e até certo ponto desmentido, não sem antes ser rechaçado pelos que crêem que não há verdade fora da Igreja... uma celeuma geradora de frutos que, à maneira do que está escrito, também expulsa o Homem de seu lugar privilegiado lançado-o no roldão dos seres criados, não à imagem e semelhança de um Deus, mas de acordo com as possibilidades de um mundo, que se descobriu estar em constante evolução. Mais uma vez o ser humano vê-se abortado dos planos divinos e lançado ao mar das intempéries, nu, desparamentado de sua realeza em relação aos demais seres vivos e à mercê da incerteza. Porém, antes de sentir-se órfão e desprovido de recursos para administrar o porvir, resolveu encarar o novo mundo povoado de animais extintos que o precederam no cortejo da vida e, através do estudo de tais seres, vem buscando a sua própria origem em meio aos escombros do passado.

E é assim que nossa história da criação com bases científicas e sem dogmatismo vem pouco a pouco sendo escrita. Dados os avanços científicos, podemos hoje aventurarmo-nos na tentativa de reescrever o que está escrito. Mas ao contrário da Gênese Bíblica esta estória ainda não tem fim... e:

No final, nem tudo será tão simples. Por certo não houve uma criação de céus e terras num princípio mas a partir de um evento de proporções cataclísmicas a estender-se até hoje, audível na radiação fóssil de fundo, cujo resultado é o universo visível composto por milhões de galáxias. Nosso mundo em seu nascimento em nada se parecia com o que vemos hoje, era quente, formado a partir dos restos da formação de nosso Sol orbitando à revelia, sendo amalgamado a partir das colisões de pedaços grandes e pequenos dessa matéria ensandecida. No correr de milhões de anos foi-se esfriando na superfície, dando origem a um árido e infernal cenário, sucedido por um período em que do acúmulo de gases, fez-se a chuva a cair ininterruptamente por milhares de anos. Vez por outra mais pedaços dos escombros da formação planetária chegaram a colidir com este mundo em formação, alimentando-o com mais matéria prima. Foi assim que no correr de muito mais tempo, em algum local apto a servir de berço que a vida surgiu... e o mundo, nunca mais foi o mesmo....

Lígia Amorese

O Pensamento Mágico

Nietzsche já dizia: "Não há fatos, apenas interpretações". Eu concordo com ele...

Esta é uma história de forças arcanas. Segundo a interpretação do dicionário, Magia vem do Grego Mageia. É um substantivo feminino referente à Arte Mágica, ou à Religião dos Magos e, num sentido figurado, é a sensação ou sentimento que se compara aos efeitos da magia; fascinação; encanto. Assim temos que o estado de encantamento diante algum fato é mágico, perceber-se vivo e fascinado com a vida é estar vivendo a Magia; sentir-se fascinado e/ou encantado é experimentar a sensação de estar sob os efeitos da magia... Viver e perceber-se vivo é Mágico...

Concordo: logo o arquétipo do embusteiro, do charlatão, daquele incauto que vendeu a alma ao demo, da bruxa e seu caldeirão de sortilégios, do crédulo em símbolos arquetípicos e praticante de rituais exóticos saltam às vistas à mais leve menção da palavra "Magia" e isto não é um fato isolado: para a maioria das pessoas são esses os símbolos ligados a esta palavra. Aliás, parece que é bem isso que se deseja que se pense. E é aí que a citação de Nietzsche ganha uma conotação visionária... as interpretações tomadas por fatos encapsulam a amplitude dos termos desviando os olhares para a cortina de fumaça lançada enquanto a raiz, a mola mestra, permanece inatingível ao olhar do leigo. Retirar essa raiz do solo das interpretações e ruminá-la deveria ser a postura de quem deseje realmente compreender o que move o mundo, de tal sorte que nada escape à compreensão, nem mesmo aquilo que não tem explicações científicas ou que deliberadamente calque-se na fé cega de seguidores de cegos.

Existem religiões. A que se destinam? "Re-ligar" o ser humano às suas origens. Ótimo que estejamos estudando exatamente as origens quando exploramos a natureza dos átomos, as bases materiais de todas as estruturas que conhecemos neste mundo, a natureza das partículas que estruturam a matéria de que somos feitos e sim, não se sabe muita coisa a este respeito além do fato de sermos um sub-produto de matéria estelar lançada no espaço através de explosões cataclísmicas que envolvem a morte de estrelas supermassivas... assunto árido quando comparado à extensa obra cosmogônica espalhada pelos 5 continentes muito mais apetitosa, envolvendo batalhas no céu, envolvendo heróis, forças da natureza na forma de deuses, anjos e demônios, remetendo ao pó o que do pó veio. O que se nota é que a vontade de entender o que somos transcende barreiras culturais e praticamente todas as nações do mundo de todos os tempos têm em seu cerne aglutinador a mitologia "nativa" como base para a compreensão da origem e dos fins disso que a gente chama de existência. E de uma forma nada impossível de ser explicada, existe em praticamente todas as lendas envolvendo a criação, a idéia de uma origem, um princípio que vai do ovo cósmico à separação de terras e águas. Com certeza, isso surge com base na observação da natureza, onde tudo nasce, cresce, envelhece e morre.

Tem sido dessa forma que, à maneira de Hermes Trimegistro e suas Leis Herméticas, legadas ao mundo num período onde já se dominava a escrita, viemos emprestando ao universo a visão humana e vemos através de nossos olhos atônitos uma ordem para qual não fomos criados à imagem e semelhança mas que tão somente reflete a nossa imagem "Assim acima como o é abaixo"... E eis a raiz do pensamento mágico, do universo centrado no umbigo de quem o observa e sofre as influências do portador de tal umbigo, da mesma forma que o portador sofre as influências de tal universo num processo simbiótico. Sim, evoluímos desde então e, a partir dos estudos sobre o comportamento humano, esse pensamento está ligado atualmente à mentalidade que temos no início de nossas vidas. A infância é o período onde o mundo gira ao nosso redor e sentimos que tudo podemos dentro desse mundo: à mais leve menção de água, logo um copo cheio aparece do nada e vem matar a sede... ou falar em papinha, já traz um prato com uma colher e mão empurrando o alimento para dentro. Quando isso é possível, a criança sente-se munida do poder de conseguir o que quer mediante a atenção e o zelo de seus pais que tudo observam, desde a mais ínfima manifestação de desconforto aos protestos mais eloqüentes. Bem entendido: quando estes estão atentos.

Pois bem, a criança cresce e aprende que nem tudo está de acordo com aquela sensação de supremacia que envolvia seus primeiros anos de vida... aprende a interagir com outros membros que não lhe atendem as necessidades imediatas, o que pode gerar um sentimento de revolta e a busca pela satisfação imediata de seus desejos independentemente das condições do meio em que viva, o que então levaria tal indivíduo a pretender resgatar aquela sensação da infância na fase adulta ao tratar com supostos pais "supra humanos" que estariam atentos a tudo, beneficiando os mais bonzinhos e castigando os maus. Em linhas gerais e de forma beeeem resumida, esta seria a "visão" do pensamento mágico a partir da compreensão do comportamento humano. Embora muitos franzam os narizes ao serem comparados com crianças, não se pode fugir: parece que é somente este desejo de viver conforme a própria vontade o que anima tais seres em suas buscas e criação de dogmas e crenças das mais bizarras.

O umbigo do mundo...

Inquietude é o que me assalta quando eu vou em busca do algo mais que acaba invariavelmente sendo lançado para debaixo dos tapetes quando se deseja apenas descartar esse "pensamento mágico". Sim, já se foi o tempo em que explicações simples com base em contos e histórias da carochinha podiam satisfazer a ânsia de entendimento mas mesmo com todo aparato tecnológico de que dispomos hoje em dia, apenas alguns centímetros têm sido efetivamente caminhados no sentido de explicar alguma coisa de forma contundente e irrefutável quando desviamos os olhos daquilo que é palpável e quanto mais se observa o mundo, mais atônitos ficamos ao depararmos com a infinidade tanto acima quanto abaixo: do micro ao macro, tudo demonstra que infinito é um termo vago porém completamente aplicável... não conseguimos juntar as peças soltas apesar dos esforços em chegar-se a uma teoria da unificação. E o que falta afinal? A partícula de Higgs, supostamente responsável pela "criação" da massa dando peso e forma às estruturas complexas? Ou não seria isso apenas trocar os nomes de deuses de nossos antepassados por forças e partículas do tipo "peças chave" que desconhecemos na totalidade mas que percebemos que atuam de forma precisa em nosso universo observável?

Até onde sei, a ciência estrutura o universo em que vivemos sobre os pilares de quatro forças a saber: forte e fraca (relacionadas ao mundo atômico), eletromagnética e gravidade (do mundo visível). Esses quatro "deuses da criação", loas, ou qualquer outro nome que se dê a elas, vêm trocando de vestimentas desde que começamos a buscar respostas: lá estão os 4 elementos - água, terra, fogo e ar, lá estão os símbolos da matéria com base no quadrado, no número 4 associado ao mundo material em numerologia com bases na Cabala Hebraica, lá estão os rituais mágicos envolvendo os 4 pontos cardeais... o mundo parece centrado no 4 e as quatro forças da natureza, peneiradas e retiradas dos entulhos de milênios de tentativas infrutíferas e sedimentares de compreensão na base da observação intuitiva e ritos levados adiante oralmente, não deixam mentir... Existe toda uma simbologia envolvendo círculos, cruzes, linhas retas e espirais utilizados desde as mais remotas eras como referência a mundo, deuses, homem, mulher e suas ligações com as divindades que remontam as mais antigas eras de nossa humanidade. Há ainda um que eu guardo comigo como um talismã, bem escondido dos olhos dos curiosos a fim de não levantar suspeitas... estou falando do Pentagrama envolvido pela singeleza de um fino círculo, o símbolo ligado à magia, à compreensão da natureza do universo onde, encimados pela alma humana, os 4 elementos rendem-se ao mesmo tempo em que dão estrutura ao que os encima. Não parece à toa que o associemos à própria estrutura anatômica de nossos corpos físicos com 4 membros e uma cabeça encimando as ações desenvolvidas por estes membros, cercado pela linha do horizonte a estender-se de maneira circular de onde quer que observemos... e bem ali no meu Pentagrama o universo é um círculo de raio infinito centrado no ser humano, cuja mente domina os 4 elementos...

Ora dirão "mas é só um símbolo". E é mesmo... mas o pentagrama expressa algo que faz uma diferença e tanto quando buscamos a simplicidade de conceitos cada vez mais diluídos e desprovidos de existência própria e inviolável. Ele declara uma ordem vinda da mente humana que é obedecida pelos elementos, ele declara a integração homem-universo, alertando que, para a compreensão do mundo, não devemos descartar aquilo que lhe dá estrutura e empresta inteligência através da capacidade de perceber padrões... Sim! A inteligência de quem contempla o mundo é o quinto elemento estruturador, ao perceber-se sob o efeito da Magia de estar vivo. Simples assim, fácil assim... todo conhecimento trancafiado às sete chaves durante o tempo de perseguição aos que compreendiam essa natureza de inter-relação da mente com a existência do cosmo em contraste com o caos, disposto num símbolo singelo. Sem a mente que o contemple, a ordem no universo não existe. E isso é tão óbvio que até parece que todo mundo que já ousou tomar conhecimento dessas coisas já assimilou isso... ledo engano. Ficam adorando seus bezerros de ouro, lustram os tais bibelôs que criaram para adornar estantes e prateleiras empoeiradas dos conhecimentos arcanos sem atinar para isso... E até a Bíblia tem pelo menos duas citações dessa natureza no velho e no novo testamento: "Ele disse: Vós sois Deuses"... Talvez o que mais perturbe a compreensão de algo tão simples seja o sentido de "deuses" numa afirmação dessas. Sempre tem todo o significado que é dado ao termo, toda a definição, etc, etc, etc... o nome está viciado. Então, sem deuses a mesma frase fica:

Per aspera ad astra...

O que seria um Mago afinal? Alguém que entendeu isso de forma direta e, sem render graças a mais ninguém, é seu próprio mestre e discípulo, alguém livre... Mas por que ainda há tanto a que se prender nesse caminho? Durante séculos, por medo de serem flagrados em suas práticas, os Magos e bruxos criaram códigos e métodos de decifração de tais códigos para que apenas os "iniciados" tomassem conhecimento do que estava sendo ensinado. Talvez algumas chaves de interpretação foram perdidas e tudo o que se tem hoje em dia são inúmeros fragmentos de verdades escritas de difícil entendimento sem as tais chaves mas que são levadas adiante, principalmente por aqueles que ainda estão mentalmente na infância e desejando modificar a vida mediante a aplicação de fórmulas...

Por incrível que pareça, há uma resistência imensa quando o assunto é simplificar para poder assimilar. Quando a minha razão entrou nesse mundo de pretensos Magos, de repente foi como se eu estivesse tentando tirar uma carta de uma pirâmides de cartas de baralho e, com isso, provocasse a ira de tais criaturas aferradas aos seus conhecimentos capengas e caros conceitos complicadíssimos adquiridos às duras penas durante anos de restrições na base das meditações e práticas muitas vezes esdrúxulas e desprovidas de sentido pela falta de compreensão. Com surpresa, constatei que elas literalmente montam guarda ao redor dessa estrutura, impedindo o acesso ao "leigo" e curioso, chamando-o de "lêndea", "parasita" e outras gracinhas... Foi assim que eu, uma curiosa, durante alguns meses tive que me confrontar com centenas de deuses em seus panteões alinhados e imbuídos de seus emissários, anjos e demônios, mobilizando céus e infernos ao evocarem loas, ou forças ancestrais criadoras do mundo e seus poderes sobrenaturais de investir contra ou a favor dos demais seres humanos a partir de fórmulas matemáticas(?). Travei contato com monstros apocalípticos de nomes estóicos, pesadelos tornados realidade, enquanto buscava a luz em meio às trevas, choro e ranger de dentes daqueles que, pretendendo a ascensão da alma humana às altas hierarquias criadoras de mundos através de sacrifícios sangrentos para a evocação de demônios, escarneciam de mim...

Sonhos de picanha numa tarde pós-churrasco? Nada disso! Apenas meu parecer em relação às visões distorcidas e levadas adiante por quem não deseja desfazer-se da ilusão de ter acessado algum recôndito interdito aos demais mortais... mas que não passa de escritos na areia: a onda da razão vem e desmonta tudo. E estes são só os portões do conhecimento. É lógico que os cães montem guarda impedindo o acesso, afinal eles também não entraram e não se pode tomar o céu de assalto impunemente...

Intermezzo...

Sim, houve a pretensão de criar intermediários entre a verdade arcana de que somos Deuses e que nossa inteligência é a responsável pela ordem que vemos no universo e as mentes dos demais seres humanos, com o intuito de faturar... é mais do que evidente que sempre houve os embusteiros e aqueles que, munidos de suas maldições, açoitaram as massas que não tinham acesso a tal conhecimento, numa tentativa de acumularem meios de ganharem dinheiro ou favores. Uma verdadeira religião com o intuito de re-ligar e servir de ponte entre criador e criatura para os que a seguem, teria a missão de libertar o ser humano do jugo opressivo de outro ser humano, fazendo-o ver que esse re-ligar é simplesmente dar-se conta de que estamos imersos num contexto de co-dependência com o universo imediato, aquele mesmo dentro da circunferência de nosso horizonte de ação, da mesma forma que o pentagrama ilustra tão bem... O fato, ou a interpretação dessa questão é que, tendo-se valido sempre de tais intermediários, a maioria das pessoas ainda guarda consigo a sensação de não ser merecedora de compreender os mistérios, aquelas questões que não são explicadas nem fazem sentido algum a menos que estejam dentro de um contexto iniciático. É assim que deuses ganham o espaço, forças da natureza continuam a ser aplacadas mediante a encenação de eventos cósmicos com base no "Assim acima como o é abaixo". É e tem sido a ignorância e o medo de errar muito o que vem mantendo as massas contidas dentro de sistemas de crenças tão elaborados quanto for a mentalidade de seus criadores.

Também numa espécie de prolongamento da infância, cremos porque é um condicionamento de nossa própria espécie crer em alguém que consideremos superior. Somos seres hierárquicos, elegemos nossos superiores da mesma forma que nossos primos e parentes macacos... Nesse contexto, faz sentido também a fé num Deus judáico-cristão, grande patriarca, senhor supremo, o ápice da Hierarquia, que ama os bons e puros de coração enquanto aniquila os ímpios imperando, soberano em quem Lhe deposite a Fé, uma crença sem questionamentos. Faz sentido não se saber senhor de sua própria existência, não devendo a nada nem a ninguém além de si mesmo a execução de seus feitos... a ignorância ainda é o maior dos males. Sim porque só nós temos a perder ao Não abolirmos os bezerros de ouro e assumirmos nossa condição de regentes pelo menos de nossa própria vida. Sem deuses nem demônios... apenas nós mesmos.

Como no pentagrama, se dominarmos as ilusões dos 4 elementos que nos sustentam, podemos adquirir o poder de agir conforme nossa vontade e não a vontade de deuses e demônios que admitimos como regentes do mundo. É dessa forma que ateus do mundo inteiro vêm fazendo sem darem satisfação a mais ninguém além de si mesmos e daqueles que os rodeiem em seu universo de ação, por não se permitirem crer sem provas, sem bases... e são mal vistos, seres de segunda grandeza. Por que? Simplesmente porque não se prendem aos grilhões de um conhecimento castrador, não se submetem às ordens e instituições, não aceitam outro deus senão eles próprios... simplesmente porque vivem e seguem com os instintos básicos que os permitem prosseguir seguindo a única lei que impera em nosso mundo animal: a da sobrevivência, além de munirem-se da razão capaz de explicar eventos, interpretando-os e colocando ordem no caos. Uma questão de consciência... Há estudos colocando a consciência dentro do funcionamento eletro-químico de nosso dispositivo cerebral... e se assim for, a morte física representaria o fim de toda uma jornada evolutiva que culminou na criação de um ser humano com seus sonhos, desejos, ansiedades, medos, tragédias pessoais, e, mediante a perda de sua funcionalidade, reduzido a um corpo inerte e sujeito à degradação biológica retornando aos seus componentes primordiais em algum tempo de ação de outros seres vivos. É certo ainda que não se sabe se o universo teve um começo ou se terá um fim. Não se sabe ao certo o que são elétrons, nem de que forma as membranas na 11ª dimensão conseguem criar singularidades consistentes com a formação de universos, nem se existem bilhões de universos como o nosso em algum complexo ainda maior que aquilo que enxergamos... Não se sabe ao certo nem mesmo a definição de "energia". E é assim que não temos respostas a nada de forma contundente porém, sabendo que não há deus senão o homem, algum alívio ainda pode ser alcançado. Pelo menos ao seguir vivendo o encantamento, o fascínio, em suma, a Magia no dia a dia... Nada como a pretensão de tomar o céu de assalto...

Lígia Amorese ~ Março 2004

Referências: O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA - Antonio Damasio - Companhia das Letras

O ERRO DE DESCARTES - Antonio Damásio - Companhia das Letras

THE MAGICAL REVIVAL - Kenneth Grant

Sobre comportamento humano: http://www.psiqweb.med.br/cursos/pensam.htmlhttp://www.salton.med.br/principal.phtml?par=id_menu%3Dimprensa%26id_imprensa%3D62

http://www.salton.med.br/principal.phtml?par=id_menu%3Dinicial%26id_texto%3D25

Leis Herméticas: http://www.pedreiroslivres.com.br/seteleishermeticas.htm

Teoria M: http://www.damtp.cam.ac.uk/user/gr/public/qg_ss.html

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Som e a Pes

Como humanos, temos sérias limitações físicas envolvendo nossos sentidos. Não vemos além de certa faixa de espectro luminoso, não ouvimos a partir de determinados tons, simplesmente nosso aparelho sensorial foi projetado para servir a uma mente habilidosa que vem se demonstrando apta a driblar tais deficiências a partir de outras capacidades natas apenas ao nosso gênero. Mesmo assim, a curiosidade quanto a como a natureza seria caso ouvíssemos além de nossa capacidade auditiva, ou víssemos mais cores além das do espectro visível, existe... e por vezes lança-nos na pesquisa e desenvolvimento de utensílios que nos permitam burlar e extrapolar tais limites.

Fato: ondas sonoras infra-sônicas propagam-se a longas distâncias... um grito infra-sônico seria suficiente para avisar a mãe que se está chegando para o almoço ainda a caminho de casa, em outra cidade... bem, não vamos exagerar mas o caso é que elefantes fazem isso muito bem. A telepatia que lhes era atribuída há muitos anos como um meio de comunicação entre as manadas distando quilômetros de distância umas das outras, só foi explicada quando se percebeu que eles eram aptos a produzirem sons inaudíveis por nós mas que foram por fim gravados e classificados como infra-sônicos. Estava explicado um mistério que, sem querer, aponta para uma direção até então não cogitada. O que era tomado simplesmente por ・telepatia・ de tais paquidermes trata-se unicamente de eventos que fogem à nossa percepção hodierna por simples incapacidade nossa de escutarmos além de uma pequena faixa de freqüência de ondas sonoras. ・Baleias cantoras・ também fazem uso de pulsos infra-sônicos para comunicação com outras da mesma espécie... e numa extensa rede infra-sônica, habitantes submersos dos vastos oceanos do mundo comunicam-se livremente.

Burlando e extrapolando limites, nós humanos caminhamos em busca de explicações para os fenômenos que nos acometem. É da nossa natureza questionar e buscar meios para satisfazer nossa curiosidade. Assim através de estudos envolvendo tais fenômenos alcançamos um sem número de outras questões a nos impulsionar a outros patamares. É assim que nessa condição atual de entendimento fazemos perguntas cada vez mais embasadas rumo às respostas mais convincentes.

Afinal o que é a tão propalada Percepção Extrasensorial? Como o nome diz é a percepção de algo que está além do que pode ser sentido e codificado pelos nossos cinco sentidos básicos. Lembremos com base no enunciado acima, que nossos sentidos estão sujeitos às limitações auto-impostas pela evolução a fim de que pudéssemos dar continuidade a este mesmo processo evolutivo. Somos fruto de uma longa corrente de tentativa e erro da natureza que desembocou na nossa atual compleição.É da nossa natureza prática esquivarmo-nos de tudo o que não possa ser explicado de forma racional. Contudo da mesma forma, abrimos um leque de interpretações com base na mesma razão a fim de especularmos a natureza daquilo que está além do que possa ser sentido... Esta é a origem do misticismo.
Sem entrar nos meandros de tal ・disciplina・, o misticismo vem ao encontro da nossa necessidade de respostas às perguntas que fogem da natureza do que pode ser percebido pelos cinco sentidos. Mal visto, vem perdendo seu número de seguidores ao ser confrontado pela ciência e pela experimentação. Contudo, os fenômenos envolvidos no que chamamos de ・caminhos mágicos・ de entendimento acontecem... mesmo que não se possa explicá-los convenientemente.Desta feita, se algo acontece e ainda assim não se tem respostas, alguma coisa está errada. Talvez, por arrogância, não aceitemos o fato de simplesmente não estarmos sabendo formular as perguntas certas, nem talvez procurar as provas nos lugares certos.

Há que se buscar respostas com bases nas perguntas certas. Muito bem, se há freqüências no espectro luminoso e sonoro que não são captáveis por nossos sentidos, isso não implica em dizer que tais faixas de espectro deixam de existir. Mesmo sem ver nem ouvir, somos continuamente bombardeados por tais freqüências além de nossa capacidade de distinção. Por conseguinte, de alguma forma elas podem ser pressentidas por nós, ainda que de maneira tão sutil que mal nos damos conta das mesmas... assim seria o caso de muitos dos eventos envolvendo PES estarem somente ligados a tal percepção de faixas de espectro além da normalidade...

Deixando de lado a captação de luz por nossas retinas, um estudo mais aprofundado com relação ao som e sua influência sobre nossos corpos se faz necessária. O som é algo mais palpável por assim dizer que a luz, visto que provoca alterações mais sensíveis em nossos corpos que o que é meramente visível. Numa escala de sutileza, os sons aliados ao contato com outros seres e substâncias, estão muito vinculados à nossa natureza física. Eles fazem nossos corpos vibrarem com maior ou menor intensidade e é justamente nessa forma de ser percebido que eu vou adentrar.A Natureza do SomO som é uma vibração que é passada de um ponto ao outro através de átomos em um mesmo meio, ou de um meio ao outro. Quando produzimos um som em um violão, na realidade estamos apenas aplicando um efeito vibratório nas cordas distendidas através do toque de nossos dedos. O resultado que se ouve é o da corda vibrando e tal vibração ao cortar o ar circundante e ser transmitida às moléculas desse ar, atinge nossos ouvidos e é percebida como um tom sonoro. O interessante é que mesmo que não dispuséssemos de ouvidos aptos a ouvir, a vibração ainda assim seria perceptível na caixa do próprio violão, uma vez que esta também é composta por átomos e estes recebem a vibração da mesma forma, sendo o som, portanto, perceptível por nós através do contato com a mesma.

Imaginemos então o que se passa com sons inaudíveis. Nossos ouvidos não os percebem diretamente mas da mesma forma que o corpo do violão, nossos corpos são feitos de átomos passíveis de serem estimulados pelas vibrações e estas ・ressoam・ em nossos órgãos. A pergunta chave é: qual o efeito desse ・ressoar・ inaudível? Infra e ultra sons estão freqüentemente cruzando nossos caminhos: o cricrilar dos grilos à noite oferece um bom exemplo de borderline sonoro uma vez que captamos apenas a parte audível de seqüências de cri-cris que extrapolam nossa acuidade auditiva. Quando ouvimos o morcego emitindo seus guinchos, da mesma forma apenas ouvimos uma parte mínima do som que foi realmente emitido na forma ultra-sônica. E os infra-sons? Os sons ・surdos・, aqueles que apenas fazem vibrar nossas caixas torácicas ainda que não sejamos capazes de distingui-los, invadem nosso sistema físico a todo momento. O oceano de magma sob nossos pés é uma fonte de tais sons, assim como o movimento constante da Terra, explosões, batidas de tambores, tons graves num órgão de igreja, as batidas de nosso coração, terremotos...Mas bem... e quais seriam os efeitos de tais vibrações percebidas de forma indireta? Não são audíveis, portanto não há limites de suportabilidade de tais sons que sejam perceptíveis em termos de sentidos mas... o que aconteceria caso fôssemos expostos a este tipo de som por um tempo suficientemente longo e numa freqüência perceptível como uma vibração poderosa em nossos corpos?

A pesquisa mais documentada sobre os efeitos dos infra-sons no corpo humano foram levadas a cabo pela NASA, nos idos anos 60, época da corrida espacial. Estudou-se os efeitos que o barulho dos foguetes poderia produzir nos corpos dos astronautas, especialmente durante o lançamento e seus testes confirmaram que a certo volume, os infra-sons causavam várias reações fisiológicas. De acordo com os resultados divulgados pelo pesquisador GH Mohr, uma pessoa exposta a freqüências entre 0 e 100 Hz aos 150-155 dB percebe vibrações na caixa torácica, mudanças no ritmo respiratório, sensação de náusea, dor de cabeça, alterações visuais, tosse e fadiga. Pesquisas subsequentes determinaram que a freqüência em que ocorrem alterações visuais, em conseqüência da vibração do globo ocular, é da ordem de 19 Hz. Os efeitos dessa freqüência específica foram confirmados ainda pelo engenheiro Vic Tandy, em sua tentativa bem sucedida de desmistificar a ・assombração・ que perturbava a paz de seu laboratório na cidade inglesa de Coventry. As aparições do ・fantasma・ eram marcadas pela sensação de desconforto e vislumbres de uma vaga silhueta acinzentada... Quando foi determinado o ponto em que tais aparições aconteciam, Tandy percebeu que correspondia ao local onde havia sido instalado um novo exaustor que, após medições, percebeu-se vibrar na freqüência dos 18,9 Hz... Esse evento fez com que o engenheiro vislumbrasse a possibilidade de pesquisar outros locais ・assombrados・ a fim de detectar a freqüência dos 19 Hz, a que provoca alterações visuais pela vibração do globo ocular. Acredita ele que outras sensações como arrepios na nuca e a de mudanças na temperatura ambiente podem estar associadas ao efeito dessa freqüência específica no corpo humano.

Ah... uma luz ao fim do túnel... então é isso! Fenômenos que a ciência não admite como realidade, a famigerada PES ・ Percepção Extrasensorial pode acontecer apenas pelo contato com freqüências abaixo de nossa capacidade auditiva. Estaríamos portanto à mercê desses efeitos quando freqüentando um terreiro de Umbanda por exemplo? Bastam medições... atabaques e surdos em batidas feéricas a fim de produzir sons que estimulam o transe e a perda dos sentidos, a ・alegria do terreiro・! E os mantrans orientais? Sons nasais, OM contínuo... numa freqüência baixa, fazendo nosso interior tremer, a vibração primeva do cosmo... Parece que uma chave para a compreensão do que se passa além dos 5 sentidos básicos foi achada. Assim, não adianta negar que fenômenos que fogem do hodierno ocorrem. Não adianta fechar-se para o desconhecido na esperança de que nada de paranormal ocorra. Há a necessidade sim de estudos sérios que busquem respostas às questões... e acima de tudo, o respeito para com aqueles que experimentam tais fenômenos. Afinal, ninguém está isento de tomar contato com freqüências infra-sônicas e experimentar os arrepios na espinha e visões fantasmagóricas...・Ora direis ouvir estrelas・... e até mesmo elas são audíveis. Os radio-telescópios que captam o som de suas entranhas continuamente dão mostras de que o Universo é uma grande sinfonia e já não somos surdos às harmonias celestes... E o místico em suas evocações mântricas já não pode ser tomado por apenas um lunático quando alega tomar contato com outras dimensões... O fato é que estamos imersos num oceano de vibrações e a mente humana avança a descobrir que o verbo se fez carne, ou, pelo menos, que a carne sofre os efeitos do verbo... por volta dos 19 Hz.

Lígia Amorese Gallo